Tradução: Marcio de Paula S. Hack

Eu não tinha percebido que Betty era a terceira parte silenciosa deste diálogo.  Devia ter adivinhado. Não que mesmo seu pior inimigo já a tenha acusado de ser A Mulher Calada – lembre-se da noite em Mullingar; o caso é que seus silêncios durante uma discussão prolongada entre eu e você são normalmente de uma natureza muito enfática, audível, e até mesmo dialética. Dá pra saber que ela está aprontado a vassoura, e cedo varrerá os nossos destroços. Neste caso, ele está certa. Eu estou fazendo muito de algo que a maioria dos crentes acha um assunto muito simples. O que é mais natural, e fácil, se você acredita em Deus, do que dirigir-se a Ele? Como não fazê-lo?

Sim. Mas depende de quem se é. Para aqueles na minha posição – adultos convertidos da intelligentsia – aquela simplicidade e espontaneidade nem sempre podem ser o ponto de partida. Não é possível simplesmente voltar à infância. Se se tenta, o resultado será apenas uma retomada arcaizante, como o Gótico Vitoriano – uma paródia do nascer de novo. É necessário um esforço para percorrer o longo caminho de volta à simplicidade.

Na prática, em minhas orações, é comum eu ter de percorrer este longo caminho bem no começo da oração.

São Francisco de Sales começa cada meditação com o comando Mettez-vous em la présence de Dieu. Me pergunto quantas operações mentais diferentes já foram utilizadas no intuito de ser obediente a isto.

O que me acontece se tento fazer – como Betty me diria – “do modo simples”, é a justaposição de duas “representações”, ou idéias, ou fantasmas. Um é o borrão luminoso que representa Deus na mente . A outra é a idéia que chamo de “eu”. Mas não posso deixar a coisa assim, por que sei – e é inútil fingir que não sei – que são ambas fantasmais. Meu eu real criou as duas – ou, melhor dizendo, as construiu, da maneira mais vaga, a partir de todo tipo de quinquilharias psicológicas.

Muitas vezes, paradoxalmente, o primeiro passo é banir o “borrão luminoso” – ou, em linguagem mais grandiosa, quebrar o ídolo. Voltemos ao que tem pelo menos algum grau de realidade resistente. Aqui estão as quatro paredes do quarto. E aqui estou eu. Mas ambos os termos são meramente a fachada de mistérios impenetráveis.

As paredes, dizem, são matéria. Isto é, como os físicos tentarão me dizer, algo totalmente inimaginável, podendo ser descrito apenas matematicamente, existindo em um espaço curvo, carregado de energias terríveis. Se eu pudesse penetrar o bastante naquele mistério, talvez poderia alcançar aquilo que é puramente real.

E que sou eu? A fachada é o que chamo consciência. Estou, ao menos, consciente da cor daquelas paredes. Não estou, da mesma maneira, ou no mesmo grau, consciente do que chamo de meus pensamentos: pois se tento examinar o que acontece quando estou pensando, a coisa para de acontecer. Mas, ainda que pudesse examinar os meus pensamentos, terminariam por ser, bem sei, o filme mais fino possível, cobrindo a superfície de um vasto abismo.  Os psicólogos nos ensinaram isto. O verdadeiro erro deles está em subestimar a profundidade e a variedade de seus conteúdos. Claridades deslumbrantes e nuvens negras se apresentam. E se todas as encantadoras visões são, como imprudentemente afirmam, meros disfarces do sexo, aonde vive o artista oculto que, de tal material monótono e claustrofóbico, pode gerar obras de arte tão várias e libertadoras? E profundidades de tempo também. Todo o meu passado; meu passado ancestral; talvez meu passado pré-humano.

Aqui, novamente, se pudesse mergulhar fundo o bastante, poderia de novo atingir, ao fim, aquilo que simplesmente é.

E só agora estou pronto, à minha maneira, para “me colocar na presença de Deus.” Qualquer dos mistérios, se eu pudesse segui-los até longe o bastante, me levaria ao mesmo ponto – o ponto onde alguma coisa, em cada caso inimaginável, pula para fora da mão nua de Deus. O hindu, olhando para o mundo material, diz, “Eu sou aquilo”. Eu digo, “Aquilo e eu crescemos de uma mesma raiz.” Verbum superne prodiens, a Palavra vinda do Pai, deu origem a ambos, e os juntou neste encontro de sujeito e objeto.

E qual, você pergunta, é a vantagem disso tudo? Bom, para mim – não estou falando de ninguém mais – isso coloca quem ora justamente na realidade presente. Pois, não importa o que mais seja ou não real, esta confrontação momentânea de sujeito e objeto está certamente ocorrendo: sempre ocorrendo, exceto quando estou dormindo. Aqui está o verdadeiro encontro entre as atividades de Deus e do homem – não algum encontro imaginário que poderia ocorrer se eu fosse um anjo ou se Deus feito carne entrasse no meu quarto. Não há aqui a questão de um Deus “lá em cima” ou “lá fora”; mas sim a operação de Deus “aqui dentro”, como a base do meu próprio ser, e Deus “lá dentro”, como a base da matéria que me cerca, e de Deus acolhendo e unindo ambos no milagre diário da consciência finita.

As duas fachadas – o “eu” como o percebo e o quarto como o percebo – eram obstáculos, enquanto os considerava, erroneamente, realidades últimas. Mas no momento em que os reconheci como fachadas, como simples superfícies, eles se tornaram condutores. Você entende? Uma mentira é uma ilusão apenas enquanto acreditamos nela; mas uma mentira reconhecida é uma realidade – uma mentira real – e como tal pode ser altamente instrutiva. O sonho deixa de ser ilusão assim que acordamos. Mas ele não se torna uma não-entidade. É um sonho real: e também pode ser instrutivo. Um cenário de teatro não é uma floresta ou uma sala de visitas de verdade: é um cenário de verdade, e pode ser um bom cenário. (De fato, nunca deveríamos perguntar de coisa alguma “Isto é real?”, pois tudo é real. A pergunta certa é “Isto é realmente o quê?”, i.e., uma cobra real ou um delirium tremens real?) Os objetos à minha volta, e a minha idéia de “eu”, serão enganadores se tomados pelos seus valores nominais. Mas são significativos se tomados como produtos finais da atividade divina. Assim, e não de outro jeito, a criação da matéria e a criação da mente se encontram, e o circuito se fecha.

Ou, dito de outro modo. Eu chamei as minhas cercanias materiais de cenário. Um cenário não é um sonho ou uma não-entidade. Mas se você ataca uma casa de cenário com um cinzel, não terá lascas de tijolo ou de pedra; terá apenas um buraco em um pedaço de lona e, além disso, uma escuridão vazia. Da mesma forma, se começa a investigar a natureza da matéria, não encontrará nada semelhante ao que a imaginação sempre supôs que a matéria fosse. Você terá matemática. Daquela realidade física inimaginável, meus sentidos selecionam alguns estímulos. Estes, eles traduzem ou simbolizam em forma de sensações, que não têm qualquer semelhança com a realidade da matéria. Destas sensações, meu poder associativo, em grande parte dirigido por minhas necessidades práticas e influenciado pelo meu treinamento social, faz pequenos embrulhos, que chamo de “coisas” (rotuladas por substantivos). Destas, construo para mim um bom pequeno cenário, convenientemente abastecido de propriedades tais como colinas, campos, casas e todo oresto. Nisto, eu posso atuar.

E se pode muito bem dizer “atuar”. Pois o que chamo de “eu mesmo” (para todos os propósitos práticos e cotidianos) é também uma construção dramática; memórias, relances no espelho, e fragmentos daquela atividade muito falível, chamada “introspecção”, são os ingredientes principais. Normalmente, chamo esta construção de “eu”, e o palco de “o mundo real”.

Ora, o momento da oração é para mim – ou inclui como condição – a consciência, a consciência redesperta, de que este “mundo real” e o “eu real” estão muito longe de ser realidades fundamentais. Eu não posso, em pessoa, deixar o palco, seja para ir aos bastidores, seja para tomar um lugar na platéia; mas posso me lembrar de que estas regiões existem. E também lembro de que o meu eu aparente – este palhaço ou herói ou figurante- sob sua maquiagem é uma pessoa real, com uma vida fora dos palcos. A pessoa dramática não poderia subir ao palco se não ocultasse uma pessoa real: se o meu eu real e desconhecido não existisse, eu sequer poderia errar sobre o eu imaginado. E na oração este eu real luta para falar, ao menos desta vez, a partir deste ser real, e dirigir-se, ao menos desta vez, não aos outros atores, mas – como devo chamá-Lo? O Autor, pois Ele nos inventou a todos? O Produtor, pois ele nos controla a todos? Ou a Platéia, pois Ele assiste, e julgará, nossa performance?

A tentativa não é de fugir do espaço e do tempo, e da minha situação de criatura como um sujeito frente aos objetos. É mais modesta: redespertar a consciência dessa situação. Se isso pode ser feito, não é preciso ir mais a lugar algum. Esta situação em si é, em todos os momentos, uma possível teofania. Aqui está o chão sagrado; as sarças estão ardendo agora.

É evidente que essa tentativa pode alcançar quase qualquer grau de fracasso ou sucesso. A oração que precede todas as orações é “Que seja o meu verdadeiro eu quem fala. Que seja ao verdadeiro Tu que me dirijo.” Os níveis a partir dos quais oramos são infinitamente variados. A intensidade emocional não é, em si mesma, prova de profundidade espiritual. Se oramos quando nos sentimos aterrorizados, o fazemos de forma intensa; isto só prova que o terror é uma emoção intensa. Só o próprio Deus pode descer o balde até as nossas profundezas. E, do outro lado, Ele deve trabalhar constantemente como o iconoclasta. Cada idéia que formamos Dele , Ele deve misericordiosamente destruir. O resultado mais abençoado da oração seria erguer-se com o pensamento “Mas eu nunca soube… Nunca sequer sonhei…” Suponho que foi num momento assim que Tomás de Aquino disse de toda a sua teologia, “parece-me palha.”

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Carta XV de Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer [Harvest Books, 2002], páginas 77 a 82.

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