A Ortodoxia de Hamlet

Gilbert Keith Chesterton

Tradução: Marcio de Paula S. Hack

Por vezes me sinto tentado a pensar (como uma em cada duas pessoas que de fato pensa) que todo mundo estaria sempre certo, contanto que não fosse educado. Mas este é, obviamente, um jeito bem errado de formular a questão. A verdade é que não existe essa coisa chamada educação; existe apenas esta educação e aquela educação. Estamos todos prontos a morrer para dar às pessoas essa educação, e (espero que sinceramente) prontos a morrer para evitar que as pessoas tenham aquela educação. O dr. Strong, em “David Copperfield”, educava garotinhos; mas o Sr. Fagin, em “Oliver Twist”, também educava garotinhos; eram ambos o que hoje chamamos de “especialistas em educação”.

Mas embora a formulação da primeira afirmação seja certamente errônea, às vezes ela nos volta à memória, quando consideramos o caso do teatro. Eu gosto demais de teatro para me tornar um crítico teatral; e acho que nessa questão, estou junto das pessoas que nunca abrem a boca. Se alguém quer saber o que é a democracia política, a resposta é simples; é uma tentativa desesperada e quase impraticável de chegar às opiniões das melhores pessoas – isto é, das pessoas que não confiam em si mesmas. Um homem pode subir a qualquer posto em uma oligarquia. Mas a oligarquia é simplesmente a premiação da impudência. Uma oligarquia diz que o vitorioso pode ser qualquer tipo de homem, contanto que não seja um homem humilde.

Um homem em um estado oligárquico (como o nosso) pode ficar famoso por ter dinheiro, ou por ter um bom olho para cores, ou por ter sucesso social, financeiro ou militar. Mas não pode ficar famoso por ser humilde, como os grandes santos.

Consequentemente, todos os homens simples e hesitantes são mantidos completamente fora da corrida; e os cafajestes representam o homem comum, embora na verdade  sejam uma minoria entre os homens comuns. Assim é, especialmente, com o teatro. É completamente falso dizer que o povo não gosta de Shakespeare. A parte do povo que não gosta de Shakespeare é simplesmente a parcela do povo que se despopularizou. Se uma certa multidão de cockneys fica entediada com “Hamlet”, os cockneys não estão entediados por que são complexos e engenhosos demais para “Hamlet”. Eles sentem que aquela excitação das tavernas, do ringue de apostas, do jornal barato, do teatro de variedades local, é mais complexa e engenhosa do que “Hamlet”; e é mesmo.

No senso mais estrito da palavra, os cockneys são artísticos demais para gostar de “Hamlet”. Eles estimularam e cansaram demais seus sentimentos artísticos para que possam gozar algo que é simplesmente belo. Eles são estetas; e um esteta, por definição, é um homem experiente o bastante para admirar uma bela pintura, mas não inexperiente o bastante para vê-la. Mas se você realmente levasse pessoas simples, camponeses honestos, criados velhos e bondosos, vagabundos sonhadores, ladrões cordiais e bandoleiros para ver “Hamlet”, eles simplesmente sentiriam pena de Hamlet. Isto é, eles simplesmente peceberiam o fato de que é uma grande tragédia.

Ora, eu acredito no julgamento de todas as pessoas incultas; mas é minha desdita que eu seja a única pessoa completamente inculta na Inglaterra a escrever artigos. Meus pares estão em silêncio. Eles não me apoiarão; têm coisas melhores a fazer. Mas uns dias atrás, quando vi a senhorita Julie Marlowe e o Sr. Sothern representarem’”Hamlet” muito habilmente, certas coisas vieram à mente sobre aquela peça, que tenho certeza que outras pessoas incultas têm em comum comigo. Mas elas nada dirão; com uma estranha modéstia, escondem sua incultura.

Há uma piada antiga que chama a galeria de um teatro “os deuses”. Da minha parte, aceito essa piada com muita seriedade. As pessoas na galeria são os deuses. São a autoridade última, até o ponto em qualquer coisa humana pode ser a autoridade última. Eu não vejo nada de excessivo no ator convocá-las com o mesmo gesto que convoca o monte Olimpo. Quando o ator olha para baixo, meditando em desespero ou invocando o negro Erebus ou os espíritos do mal, então, em tais momentos, por favor deixem-no curvar suas negras sobrancelhas e olhar para os lugares logo abaixo de si. Mas se existe em qualquer peça montada qualquer coisa que o faça erguer o coração aos céus, então, por Deus, ao olhar para o céu, que veja os pobres.

Há uma pequena questão, por exemplo, na qual acho que o público se enganou sobre Hamlet, não sozinho, mas pela influência dos críticos. Há uma questão na qual os não-educados provavelmente estariam certos, se apenas não fossem pervertidos pelos educados. A questão é: todos no mundo moderno falam de Hamlet como um cético. O mero fato de ver a peça representada muito fina e vivamente pela senhorita Marlowe e pelo Sr. Sother simplesmente varreu os últimos farrapos desta heresia pra fora da minha mente. O que é realmente interessante em Hamlet é que ele não era de modo algum um cético. Ele nunca duvidava, a não ser no sentido em que todo homem são duvida, incluindo papas e cruzados. O ponto essencial é bem claro. Se Hamlet fosse um pouquinho cético, não haveria a tragédia de Hamlet. Se tivesse qualquer ceticismo a exercitar, poderia tê-lo feito já no caso do altamente improvável fantasma de seu pai. Poderia ter chamado aquela eloquente pessoa de uma alucinação, ou de outra coisa que nada quer dizer, casado com Ofélia, e seguir comendo pão com manteiga. Este é o primeiro ponto evidente.

A tragédia de Hamlet não é que Hamlet seja um cético. A tragédia de Hamlet é ele ser um filósofo bom demais para ser um cético. Seu intelecto é tão claro que ele vê de imediato a possibilidade racional dos fantasmas. Mas o erro rematado de considerar Hamlet um cético tem muitos outros exemplos. A teoria toda surgiu do costume de citar passagens empoladas fora de seus contextos, como o “Ser ou não ser”, ou (muito pior) a passagem em ele que diz, com um  gesto quase grosseiro de cansaço, “Ora, para vós então não é; pois nada é bom ou mau, a não ser por força do pensamento”. Hamlet diz isso por que não aguenta mais a companhia de dois homens tolos; mas se alguém deseja ver como a atitude de Hamlet é exatamente a contrária, pode vê-lo na mesma conversação. Se alguém deseja ouvir as palavras de um homem que, no sentido mais definitivo, não é um cético, aqui estão elas:

“Esta bela estrutura, a terra, me parece um promontório estéril; este magnífico dossel, o ar, vede este esplêndido firmamento suspenso, este majestoso teto trabalhado com um fogo de ouro, apenas me parece uma repulsiva e pestilenta congregação de vapores… Que obra de arte é um homem, que nobre na razão, que infinito nas faculdades, na expressão e nos movimentos, que determinado e admirável nas ações; que parecido a um anjo de inteligência, que semelhante a um deus! A beleza do mundo; a flor dos animais; e contudo, para mim, que é esta quintessência do pó?”

Estranhamente, ouvi esta passagem citada como uma passagem pessimista. Talvez seja a passagem mais otimista em toda a literatura humana. É a expressão absoluta do fato essencial da fé de Hamlet; sua fé de que, embora ele não possa ver que o mundo é bom, ele certamente é bom; sua fé de que, embora não consiga ver o homem como a imagem de Deus, ainda assim é certamente a imagem de Deus. O homem moderno, assim como a concepção moderna sobre Hamlet, acredita apenas em estados de ânimo. Mas o Hamlet real, como a Igreja Católica, acredita na razão. Muitos bons otimistas louvaram o homem quando sentiram que o homem era louvável. Só Hamlet louvou o homem quando sentia vontade de chutá-lo como a um macaco. Muitos poetas, como Shelley e Whitman, foram otimistas quando se sentiram otimistas. Só Shakespeare foi otimista quando se sentiu pessimista. Isto é a definição de uma fé. Fé é aquilo capaz de sobreviver a um estado de ânimo. E Hamlet tem isso do início ao fim. Cedo ele protesta contra uma lei que reconhece: “Oh, não tivesse o Eterno posto a sua lei contra o suicídio!” Antes do fim, declara que de nossa desastrada conduta será feita alguma coisa, “por mais que nós lhe demos a demão de início”.

Se Hamlet fosse um cético, teria tido uma vida fácil. Não teria sabido que seus estados de ânimo eram estados de ânimo. Ele os teria chamado Pessimismo ou Materialismo, ou qualquer outro nome imbecil. Mas Hamlet era uma grande alma, grande o suficiente para saber que ele não era o mundo. Ele sabia que havia uma verdade além de si mesmo, portanto acreditava firmemente nas coisas mais diferentes de si, em Horácio e no fantasma. Ao longo de toda a história, podemos ler sua convicção de que ele está errado. E isto, para uma mente clara como a dele, é apenas outro modo de dizer que existe algo que é certo. O verdadeiro cético nunca pensa que está errado; pois o cético real não acredita que exista um errado. Ele despenca através de chão após chão, num universo sem fundo. Mas Hamlet era o próprio inverso de um cético. Ele era um pensador.

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Original: The Orthodoxy of Hamlet. Citações da peça tiradas da versão de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Traduzido ao som de “IRS”, uma das novas músicas do Guns N’ Roses. Se achou ruim, favor reclamar com o Axl.


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