Chuva de Primavera [1942]

Bernard Malamud

Tradução: Marcio de Paula S. Hack

 

George Fisher ainda estava acordado, pensando no acidente que vira na rua 121. Um jovem fora atingido por um automóvel, e levado para a farmácia da Broadway. O farmacêutico não pôde fazer nada pelo rapaz, então eles esperaram por uma ambulância. O homem estava deitado na mesa do farmacêutico, nos fundos da loja, olhando para o teto. Ele sabia que ia morrer.

George sentia muita pena do homem, que parecia ter pouco menos de trinta anos. O modo estóico com o qual encarou o acidente convenceu George de que era uma pessoa de caráter refinado. Ele sabia que o homem não tinha medo da morte, e queria falar-lhe e dizer que ele também não tinha medo de morrer; mas as palavras nunca tomaram forma em seus lábios finos. George foi para casa, com palavras presas em sua garganta.

Deitado na cama em seu quarto escuro, George ouviu sua filha, Florence, colocar a chave na fechadura. Ele a ouviu sussurrar para Paul, “Você não quer entrar um pouquinho?”

“Não,” disse Paul pouco depois, “amanhã tenho aula às nove.”

George pensou, Este é o primeiro rapaz decente com quem Florence sai, e ela não sabe o que fazer dele. É igual à mãe. Não sabe lidar com pessoas decentes. Ele ergueu a cabeça e olhou para Beatie, meio esperando que ela acordasse, pois seus pensamentos lhe soavam tão altos – mas ela não se moveu.

Esta era uma das noites insones de George. Elas vinham assim que ele acabava de ler um romance interessante, e ele ficava acordado imaginando que todas aquelas coisas aconteciam com ele. Em suas noites insones, George pensava no que lhe havia acontecido durante o dia, e dizia aquelas palavras que as pessoas viam em seus lábios, mas que jamais o ouviam dizer. Ele dizia ao jovem moribundo, “Eu também não tenho medo de morrrer.” Dizia à heroína do romance, “Você entende a minha solidão. Sou livre para falar dessas coisas com você.” Dizia à mulher e à filha o que pensava delas.

“Beatie”, ele dizia, “você me fez falar uma vez, mas não foi você. Foi o mar, foi a escuridão e o som da água sugando as vigas do píer. Aquelas coisas poéticas que eu disse sobre como são os homens solitários – eu disse porque você era bonita, com seu cabelo vermelho-escuro, e eu tinha medo, porque eu era um homem pequeno, de lábios finos, e tinha medo de não te ter. Você não me amava, mas disse sim para Riverside Drive, e para o seu apartamento e para os seus dois casacos de pele, e para as pessoas que vêm aqui jogar bridge e mah-jongg.”

Ele dizia a Florence, “Que decepção você é. Eu te amava quando criança, mas agora você é uma pessoa egoísta e mesquinha. Meu último resto de afeição por você se foi, quando se recusou a fazer faculdade. A melhor coisa que você fez foi trazer um rapaz educado como Paul para esta casa. Mas você não vai continuar com ele, de jeito nenhum.”

George dizia esses pensamentos para si mesmo, até que o primeiro cinza do crepúsculo de abril flutuasse pelo quarto, e fizesse mais clara a silhueta de Beatie, na outra cama. Então George se virava e dormia um pouco.

Pela manhã, no café, ele perguntou a Florence, “Você se divertiu ontem?”

“Ah, me deixa em paz,” respondeu Florence.

“Deixa ela em paz,” disse Beatie, “Você sabe que ela fica mal-humorada quando acorda.”

“Não sou mal-humorada,” disse Florence, quase chorando. “É Paul. Ele nunca me leva pra lugar nenhum.”

“O que vocês fizeram ontem à noite?” perguntou Beatie.

“O que fazemos sempre,” respondeu Florence. “Saímos pra andar. Não consigo nem levá-lo a um cinema.”

“Ele tem dinheiro?” perguntou Beatie. “Vai ver trabalha pra pagar a faculdade.”

“Não,” disse Florence, “ele tem dinheiro. O pai dele é um grande gastador. Ah, de que adianta? Nunca vou conseguir fazer com que ele saia comigo.”

“Paciência,” Beatie disse a ela. “Da próxima vez, eu ou seu pai falaremos com ele.”

“Eu não,” disse George.

“Não, você não,” respondeu Beatie, “mas eu vou.”

George bebeu o seu café e saiu.

Quando chegou em casa para o jantar, havia um bilhete para ele, informando que Beatie e Florence haviam jantado mais cedo, por que Beatie iria a Forest Hills jogar bridge e Florence tinha combinado de ir ao cinema com uma amiga. A empregada serviu George, que depois foi para a sala ler os jornais e ouvir as notícias da guerra.

A campanhia tocou. George se levantou, gritando para a empregada, que vinha de seu quarto, que ele atenderia a porta. Era Paul, usando um chapéu velho e uma capa de chuva molhada nos ombros.

George ficou feliz por Florence e Beatie não estarem em casa.

“Entre, Paul. Está chovendo?”

“Chuviscando.”

Paul entrou sem tirar a capa. “Onde está Florence?” ele perguntou.

“Foi ao cinema com uma amiga. A mãe dela está jogando bridge ou mah jongg em algum lugar. Florence sabia que você viria?”

“Não, não sabia.”

Paul parecia desapontado. Ele foi até a porta.

“Bom, eu sinto muito,” disse George, esperando que o rapaz ficasse.

Paul virou-se sob o batente da porta. “Sr. Fisher.”

“Sim?” disse George.

“Está ocupado agora?”

“Não, não estou.”

“Que tal sair para andar comigo?”

“Você não disse que estava chovendo?”

“É só uma chuva de primavera,” disse Paul. “Ponha uma capa de chuva e um chapéu velho.”

“Sim,” disse George, “andar me fará bem.” Ele foi até o quarto, calçar um par de botas de borracha. Enquanto se calçava, podia perceber uma sensação de entusiasmo, mas não não deu atenção a isso. Vestiu sua capa de chuva preta e o chapéu do ano passado.

Assim que saíram para a rua e a névoa gelada bateu em seu rosto, George pôde sentir o entusiasmo fluindo pelo seu corpo. Atravessaram a rua, passaram pelo túmulo de Grant, e caminharam em direção à ponte George Washington.

O céu estava cheio de uma névoa branca flutuante, que se agarrava aos postes de luz. Um vento úmido soprou através do escuro rio Hudson, vindo de Nova Jersey, e trazia dentro de si o cheiro da primavera. Algumas vezes o vento soprava a névoa fria nos olhos de George, e isso lhe dava pequenos choques, como se a névoa fosse eletricidade. Dava passos longos para acompanhar Paul, e secretamente se alegrava do que faziam. Sentiu uma vontadezinha de chorar, mas não deixou que Paul percebesse.

Paul falava. Contou histórias sobre os professores de Columbia, das quais George riu. Então George se surpreendeu, quando Paul lhe contou que estudava arquitetura. Ele apontou os vários detalhes das casas pelas quais passavam, e contou do que derivavam. George ficou muito interessado. Sempre gostara de saber a origem das coisas.

Diminuíram o passo, esperaram que o tráfego parasse, cruzaram novamente a Riverside Drive, e andaram pela Broadway, em direção a um bar. Paul pediu um sanduíche e uma garrafa de cerveja, e George fez o mesmo. Conversaram sobre a guerra; então George pediu mais duas garrafas de cerveja, uma para cada, e os dois começaram a conversar sobre pessoas. George contou ao garoto a história do homem que morrera na farmácia. Sentiu uma estranha felicidade ao perceber como a história afetava Paul.

Alguém pôs uma moeda no fonógrafo elétrico, que tocou um tango. O tango acentuou ainda mais o prazer de George, que ficou pensando na fluência com que falara.

Paul estava em silêncio. Bebeu um pouco da cerveja, e então começou a falar de Florence. George sentiu-se inquieto, e um pouco amedrontado. Temia que o garoto lhe contasse algo que não queria saber, e que sua felicidade chegasse ao fim.

“Florence é linda, com aquele cabelo ruivo,” disse Paul, como quem fala sozinho.

George não disse nada.

“Sr. Fisher,” disse Paul, abaixando o copo e erguendo os olhos, “há uma coisa que eu gostaria que o senhor soubesse.”

“Eu?”

“Sr. Fisher,” Paul disse-lhe gravemente, “Florence me ama. Ela disse isso. Eu quero amá-la por que sou um homem solitário, mas não sei – não consigo amá-la. Não consigo chegar até ela. Ela não é como o senhor. Nós saímos para andar pela Drive, e não consigo chegar até ela. Então ela diz que eu estou melancólico, e que quer ir ao cinema.”

George podia sentir seu coração batendo forte. Tinha a sensação de que lhe contavam segredos, só que não eram segredos, pois os conhecêra a sua vida inteira. Ele queria falar – dizer a Paul que ele também era assim. Queria lhe dizer o quão solitário fôra toda a sua vida, e contar de como ficava acordado à noite, sonhando e pensando até que a manhã cinzenta entrasse pelo quarto. Mas não disse.

“Eu sei o que você quer dizer, Paul,” ele falou.

Foram para casa sob a chuva, que caía forte agora.

*

Ao entrar, George viu que Beatie e Florence já estavam dormindo.  Tirou as botas e pendurou a capa e o chapéu molhados no banheiro. Calçou os chinelos, mas decidiu não mudar de roupa, pois não tinha vontade de dormir. Tinha consciência de uma plenitude de sentimento dentro de si.

George foi até o rádio e ligou num jazz suave. Acendeu um charuto e apagou as luzes. Por um tempo ficou de pé, no escuro, ouvindo a música. Então foi até a janela e puxou a cortina para o lado.

A chuva de primavera caía por todos os lados. Sobre a massa escura do litoral de Jersey. Sobre o rio que corria. Do outro lado da rua, a chuva batia nas folhas dos bordos altos, molhava os postes de luz e dançava no vento. O vento, forte e agudo, soprava  a chuva contra a janela, e George sentiu lágrimas em seu rosto.

Sentiu nascer em si uma grande fome de palavras. Ele queria falar. Queria dizer coisas que jamais dissera antes. Queria dizer-lhes que havia se encontrado, e que nunca mais estaria perdido e mudo. Uma vez mais possuía o mundo e o amava. Ele amava Paul, e amava Florence, e amava o rapaz que morrera.

Preciso dizer a ela, ele pensou. Abriu a porta do quarto de Florence. Dormia. Ele podia ouvir a sua respiração sossegada.

“Florence,” ele chamou baixinho, “Florence.”

Ela acordou na hora. “O que é?”, sussurrou.

As palavras correram aos seus lábios. “Paul, Paul esteve aqui.”

Ela ergueu-se sobre o cotovelo, seus longos cabelos caindo sobre o ombro. “Paul? O que ele disse?”

George tentou falar, mas as palavras estavam subitamente imóveis. Nunca poderia contar-lhe o que Paul dissera. Um sentimento de tristeza por Florence apunhalou-o.

“Ele não disse nada,” balbuciou. “Nós andamos – saímos pra andar.”

Florence suspirou e deitou-se novamente. O vento soprou a chuva de primavera contra as janelas, e os dois ouviram o som das gotas caindo na rua.

————————————————————————————————————————————————–

Tradução de “Spring Rain”, publicado em The Complete Stories [Farrar, Straus and Giroux, 1998], páginas 9 a 13.

 

Anúncios